Dias Comuns

qualquer coisa aleatória que passa na cabeça

18 de dezembro de 2011

A morte


Teve um trabalho esse semestre pedindo pra assistir a uma entrevista da Viviane Mosé, escolher um tema por ela falado na entrevista e falar sobre o mesmo. A disciplina era de educação, mas minha capacidade de abstração permitiu que eu nem tocasse no assunto e ainda assim tirei 10. Estranho, né? Abaixo o texto que escrevi (o vídeo tem 6 partes, colei só a primeira aqui).


O tema escolhido através da entrevista de Viviane Mosé foi a morte. Não foi um dos temas que ela se alongou mais durante mais de uma hora de programa ou um dos principais assuntos em voga, mas me chamou atenção por três motivos.

O primeiro deles é a frase usada por ela na entrevista: “A vida é luta. A falta de luta é a morte”. Não há como falar de morte sem falar de vida e vice-versa. Viviane também cita que a civilização ocidental vive em uma constante negação da morte. Por isso as pessoas tendem a viver no limite, já que não sabem se estarão vivas no dia de amanhã. A morte não é encarada com naturalidade pelos ocidentais.

O segundo motivo é pelo fato de que recentemente li dois livros em que o tema era, de certa forma, abordado. Um era “As Intermitências da Morte” de José Saramago, no qual fala da Morte como uma entidade que deixa de matar e as conseqüências desse ato para a humanidade. O outro livro é o “O Vendedor de Histórias” de Jostein Gardeer. Neste, o protagonista é um rapaz bastante criativo que inventa e vende histórias para escritores que estão passando por uma má fase criativa. Em uma das histórias vendidas, fala-se do caso de várias crianças que teriam nascido sem alma. Estas eram inteligentes acima da média, mas não possuíam emoções. Os especialistas chamaram essa doença de LSD (Lack of Soul Disease, Doença da Ausência de Alma). Após longos estudos, teorizaram que o universo tinha um número limitado de 12 milhões de almas e que as crianças nascidas após este número não possuiriam uma. Então haviam muitos debates acerca do que fazer com essas crianças e a igreja, por exemplo, recusava batizar as mesmas considerando que a ausência de alma não as tornava humanas como o resto da população.

Por fim, o último ponto, é ter assistido ao filme “Mar Adentro”, no qual o protagonista sofre um acidente e fica sem movimento algum. Este resolve se matar, mas o governo não permite e ele acaba tendo que arquitetar um plano para morrer com a ajuda dos seus amigos ao mesmo tempo em que em que precisa ser diligente e não deixar que estes sejam acusados pela sua futura morte.

Depois dessa perspectiva singular de raciocínio, relacionei a questão da morte, religião e a frase da entrevistada com a discussão sobre a descriminalização do aborto e da eutanásia. Como Viviane Mosé não trata de nenhum desses assuntos, mas apenas me deu a idéia da criação do texto, não posso dizer que haja nada de novo em sua fala acerca do tema.

Todavia sua frase “A vida é luta. A falta de luta é a morte” dá margens a interpretações. Quando alguém desiste e pára de lutar, mesmo metaforicamente, ela está “morta”. E se uma pessoa tem a capacidade, lúcida, de decidir que não dá mais para viver desse jeito, que sua vontade seja feita.

Lembro de ver grupos “pró-vida” se manifestando na TV. A questão não é ser a favor da vida. Todos são a favor de viver. Não existe um grupo “pro-morte”. A questão central é definir o que é essa vida. No caso da eutanásia: viver é ficar acamado sem ter controle algum sobre seu corpo? É permanecer em eterno estado vegetativo sem previsão de melhora? Por que passar por esse sofrimento?

No caso do aborto, as pessoas contra o mesmo dizem que as mulheres abortarão indiscriminadamente. Esquecem que não há nenhum método de aborto que não deixe seqüelas (físicas ou emocionais) em uma mulher. Esquecem que as pessoas continuarão a se proteger de doenças sexualmente transmissíveis. Acredito que se uma mulher opta pelo aborto, não é porque ela não deseje uma criança, mas sim que não tem condições de tê-la naquele momento. Em um livro, Freakonomics, o autor embasa essa idéia concluindo que a legalização do aborto nos EUA fez com que as mulheres ponderassem se tinham condições de criar uma criança e caso contrário, optariam pelo aborto. Ainda segundo o mesmo livro, o infanticídio diminuiu, junto com os casamentos forçados e de bebês sendo entregues a adoção.

O estado laico não deveria interferir nas decisões pessoais. Deve ser dado o poder da escolha. Creio que o fator religioso deva afetar a decisão caso a pessoa em questão seja religiosa. É a sua decisão moral, baseada em sua vivência, que decidirá o que deseja para ela (eutanásia) ou para seus descendentes (aborto). E só porque algo é certo para ela, não significa que seja para você. Mas pelo menos você pode escolher.
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