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21 de junho de 2012

Histórias Cruzadas (The Help)

Batuta me recomendou esse filme e é ótimo!


O filme é um retrato sobre uma jovem mulher caucasiana, Eugenia “Skeeter” Phelan, e o seu relacionamento com duas empregadas negras (Aibileen e Minny) durante a era americana dos Direitos civis no idos de 1960. Skeeter é uma jornalista que decide escrever um livro da perspectiva das empregadas (conhecido como The Help), mostrando o racismo que elas enfrentam quando estão trabalhando para famílias de brancos.

Primeiro que lembrei de Rita Skeeter de Harry Potter, já que a jornalista (interpretada pela LINDA Emma Stone) também se chama Skeeter. Mas isso é apenas uma coincidência, nada mais. A personalidade de ambas são completamente antagônicas.


Em determinados momentos do filme houve duas referências que eu não entendi, então pesquisei e tô explicando aqui: o primeiro era sobre a figura de Margaret Mitchell.

Seu comportamento de melindrosa e seu trabalho em projetos sociais junto a população negra de Atlanta, começaram a escandalizar a sociedade conservadora da cidade. (Fonte)

E a outra referência era "Jim Crow". Descobri que eram leis:

As leis de Jim Crow foram leis estaduais e locais decretadas nos estados sulistas e limítrofes nos Estados Unidos da América, em vigor entre 1876 e 1965, e que afetaram afro-americanos, asiáticos e outros grupos. A "época de Jim Crow" ou a "era de Jim Crow" se refere ao tempo em que esta prática ocorria. As leis mais importantes exigiam que as escolas públicas e a maioria dos locais públicos (incluindo trens e ônibus) tivessem instalações separadas para brancos e negros. (Leis de Jim Crow)

O trabalho feminino da MULHER BRANCA não parece ser visto com bons olhos. O "certo" é arranjar um homem, o mais cedo possível, e casar com ele. É o dilema que vive a repórter. Ela se preocupa mais com o trabalho do que isso.


As empregadas são tratadas como objeto. "Você pode me emprestá-la?" é um das perguntas feitas por uma patroa a outra. Posteriormente há uma história de uma mulher que disse em seu testamento que sua empregada trabalhasse para outra mulher e assim foi feito! Fora as ocasiões que tratam as empregadas (todas negras) como se elas fossem ladras. Tem o exemplo do papel higiênico e o da comida (a mulher branca, mesmo cochilando no sofá, diz que está acordada e comendo, apenas para empregada não compartilhar da mesma comida que ela).


Dá pra perceber que o RACISMO é na cara dura, né? As negras não podem usar o mesmo banheiro que os patrões, pois supostamente elas carregam doenças diferentes da dos homens brancos. Banheiros próprios para as mesmas são criadas. É como se eles não fossem humanos, bem triste mesmo. E o que mais choca é que ninguém tem "consideração" em falar delas (as empregadas negras) pelas costas, falam na frente mesmo. Sentimentos, quem se importa?


Além de serem oprimidas pela população branca, a empregada, mulher, negra, quando chega em casa, ainda está sujeita a levar uma SURRA do seu marido. Muito tensa a situação. As negras não veem uma luz no fim do túnel: temem (e com razão) as possíveis retaliações. Querem mudar de condição, mas nao sabem como. Por isso há um receio enorme em dar suas contribuições (entrevistas) ao livro.

Um contraponto na história das domesticas é que são elas efetivamente que cuidam das filhas e filhos das patroas. É como se fosse uma segunda mãe, tendo em vista que as empregadas, aparentemente, ficavam até o fim da vida na casa da DONA. As crianças talvez tivessem um relacionamento melhor com as empregadas do que com a própria mãe. Só que cresciam e, a maioria delas, se tornavam iguais sua genitoras. Boa parte da parcela dessa "culpa" é da sociedade (dos valores que a mesma impõe).


Em determinado momento do filme há uma história sendo contada. A criança pergunta para a empregada (e babá, afinal as funções eram acumuladas) "Por que você é negra?" e ela responde "Porque tomei muito café". Porque não tem resposta pra isso, né? A criança não compreende como uma pessoa tão boa com ela fosse de outra COR. É um defeito nascer negro.

É interessante perceber que a sociedade é racista, mas as pessoas dizem que não são. Sempre mostram que OS OUTROS, esses seres invisíveis, são racistas. Não eles. Não há consciência da prática da discriminação. É tão intrínseco na forma de agir deles que não percebem que suas atitudes ferem os outros. Por que? Porque acham normais. Dar um emprego para uma mulher negra trabalhar em sua casa é FAZER UM FAVOR. "Por isso não sou racista, dei um emprego a uma negra". Tá entendendo o raciocínio? Usam também de uma justificativa cristã para "incentivar" as empregadas. Em um determinado momento, uma das empregadas pede um empréstimo a patroa e essa diz "Como boa cristã, vou te ensinar uma lição. Se não tem dinheiro, LUTE PARA TER que você conseguirá. Por isso não irei te emprestar". Como se isso fosse um ensinamento. Pura ideologia.


E é nessa sociedade que Skeeter tenta atuar para contar a história dos oprimidos. Que, puxando pro lado da minha formação, é um reflexo da concepção de história proposta pela Escola dos Annales.

Rompiam decididamente com o culto aos heróis e a atribuição da ação histórica aos chamados homens ilustres, representantes das elites. Para estes estudiosos, o cotidiano, a arte, os afazeres do povo e a psicologia social são elementos fundamentais para a compreensão das transformações empreendidas pela humanidade

Skeeter vai contra a ordem social vigente. É uma transgressora. Olha o nível das coisas que o ESTADO proibia:

"Qualquer pessoa imprimindo publicidade ou circulando matéria escrita incitando a aceitação pública de igualdade social entre brancos e negros está sujeito a prisão."

Liberdade para que, né? O cerco era muito grande.

Além dos preconceitos com raça, o filme também toca na questão da sexualidade. A menina que só pensa em ser uma escritora é questionada por sua mãe se possui algum "pensamento não natural", ou seja, sugerindo que a filha fosse lésbica. Mas, calma, TEM CURA! Homossexualismo era doença, mas tudo se resolvia com um chazinho de ervas e outras coisinhas a mais.

Outro ponto bacana é a mulher loira - que não lembro o nome - que aparece no filme:


Ela é diferente das outras patroas: conversa bastante, dá atenção a empregada, faz contato FÍSICO com a mesma, come na mesma mesa que ela (e convida a empregada para comer na sua própria mesa). Há contanto, entende? Não há uma distância física e emocional como nas outras mulheres da sociedade. É como se essa a loira fosse uma versão mais velha da personagem de Emma Stone.


Recomendo muito assistirem ao filme. Gostei bastante. Dá para fazer várias discussões, tem dezenas de temas a serem discutidos. E o final do filme, é bom? É. Fica em aberto. Skeeter foi para Nova Iorque? A Aibileen arranjou outro emprego? Gostaria de saber, mas não é tão relevante para a conclusão da história. O importante é o livro, The Help. E lá a história tem um desfecho (ou um principio, dependendo do ponto de vista). ASSISTA!

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