Dias Comuns

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27 de agosto de 2012

Fragmentos de um discurso amoroso


Em "Fragmentos de um discurso amoroso", Roland Barthes faz, grosso modo, um dicionário do amor. Mas esse dicionário não é, por assim dizer, rígido. O uso da palavra “discurso” do título da obra remete a dis-cursos, a ação de correr de um lado para o outro, idas e vindas. Sendo assim, um discurso está em constante mutação. Essas palavras presentes no livro, que o autor chama de figuras, cada um de nós pode preenchê-las com nossos próprios significados baseados em nossas experiencias amorosas. Roland Barthes usa referencias tanto da literatura, como a amigos próximos e a sua própria para atribuir significado a alguma dessas palavras.

Achei interessante a ideia do livro, pois tenta por em palavras o que cada figura representa no campo amoroso. É sempre legal fazer esse debate mental do que EU penso com o que os outros pensam e criar novos conceitos ou adequá-los aos seus próprios. É um bom livro pra ser debatido.


Alguns exemplos das palavras listadas pelo autor e seu respectivo significado:

Alteração: produção breve, no campo amoroso, de uma contra-imagem do objeto amado. Ao sabor de incidentes ínfimos ou de traços tênues, o sujeito vê a boa Imagem subitamente se alterar e ruir.

Ciúme: “sentimento que nasce no amor e que é produzido pelo temor de que a pessoa amada prefira um outro” (Littré).

Encontro: a figura se refere à época feliz imediatamente subsequente á primeira sedução, antes que surjam as dificuldades da relação amorosa.

Entender: percebendo repentinamente o episodio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas, o sujeito exclama “Quero entender (o que está acontecendo comigo)!”

Espera: tumulto de angustia suscitado pela espera do ser amado, ao sabor dos mais ínfimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, retornos).

Identificação: o sujeito se identifica dolorosamente com qualquer pessoa (ou com qualquer personagem) que ocupe, na estrutura amorosa, a mesma posição que ele.

Imagens: no campo amoroso, os ferimentos mais profundos vêm mais daquilo que vemos do que daquilo que sabemos.

Mutismo: o sujeito amoroso se angustia pelo fato de o objeto amado responder parcimoniosamente, ou não responder, às palavras (discursos ou cartas) que ele lhe destina.

Objetos: todo objeto tocado pelo corpo do ser amado torna-se parte desse corpo e o sujeito a ele se apega apaixonadamente.

Por quê: ao mesmo tempo em que se pergunta obsessivamente por que não é amado, o sujeito amoroso vive na crença de que, de fato, o objeto amado o ama, mas não lhe diz.

Sedução: episodio reputado inicial (mas que pode ser reconstruído a posteriori) no decorrer do qual o sujeito amoroso é “seduzido” (capturado e encantado) pela imagem do objeto amado (nome popular: amor à primeira vista; nome cientifico: enamoramento)

Vale muito a pena ler e reler!
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