9 de dezembro de 2012

Isaac Marion – Sangue Quente


”Quando você chega no fim do mundo, não interessa muito que caminho pegou para chegar lá”
Sei que você já deve ter ouvido que esse livro é um novo Crepúsculo  Em verdade vos digo: a única semelhança de Crepúsculo (Twilight) com Sangue Quente (Warm Bodies) é que ambos os livros reinterpretam e ressignificam as histórias clássicas de vampiros e zumbis, dando um ar mais romanceado aos mesmos. Porem a essência de ambos permanece, na maior parte, a mesma. Vampiros continuam chupando sangue com seus caninos afiados e zumbis permanecem tendo seus problemas de locomoção e cérebros continuam sendo sua refeição favorita.


Resolvi ler este livro porque vi o trailer de Sangue Quente no Garotas Geeks. O protagonista masculino é um dos atores da primeira geração do falecido seriado britânico Skins. O trailer era meio engraçadinho para um filme de zumbis. Como o filme está pertinho de estrear, resolvi ler o livro só para ver o que me espera e se vale a pena assistir ao longa-metragem no cinema.


Aparentemente valerá. Entenda.

A história é contada através da perspectiva de um zumbi. Vamos esclarecer o zumbi que Isaac Marion propõe: não possuem memória, mal conseguem se comunicar, possuem uma velocidade de raciocínio extremamente lenta e não conseguem ler. Até aí, nada de novo, né? A grande sacada do autor é explicar a motivação dos zumbis gostarem de comer CÉÉÉÉÉREEEEBROOOOSSS: ao DEGUSTÁ-LOS, os zumbis têm acessos a flashes da vida da pessoa. Isso os faz sentirem-se menos mortos. É como se fosse uma droga em que a LOMBRA tivesse um curto prazo.
”Perder um braço é um problema cosmético de pouca importância.”
Ok. O protagonista, que apenas se lembra de que seu nome começa com a letra R, em uma das investidas contra um grupo de humanos, acaba por comer o cérebro de um rapaz chamado Perry Kelvin, adquirindo momentaneamente suas memórias. Após o CHOQUE das lembranças, R avista aquela que agora é a ex-namorada do tal de Perry, Julie. E contra todos os pressupostos, ele se sente impelido a protegê-la. Algo inédito. É a partir daí que a história se desenrola. O relacionamento bizarro entre um zumbi e uma pessoa viva.


Não, não é meloso. Na verdade o livro levanta vários questionamentos reflexivos sobre a humanidade. Quase todos não possuem uma resposta definitiva/correta. E é até meio pessimista quanto as possíveis respostas.  
"Como isso começou? Como nos tornamos o que somos? Será que foi um vírus misterioso? Raios gama? Uma maldição antiga? Ou algo mais absurdo ainda? Ninguém fala muito disso. Nós estamos aqui e é assim que as coisas são. Não reclamamos. Não fazemos perguntas. Apenas fazemos o que temos de fazer”
O livro toca muito na questão da memória e da escrita. Como historiador, não consigo deixar de perceber esses detalhes. Esquecer quem somos (sou), esquecer a nossa  (minha) história... Essa é a parte mais triste de ser um zumbi, segundo R (pense nos pacientes de Alzheimer, por exemplo). A memória é vital por isso. Concomitante ao desejo de R resgatar suas próprias lembranças, temos a história paralela de Perry, que ansiava por se tornar um escritor, mas se questionava bastante “quem iria querer ler num mundo onde apenas para sobreviver é necessário um esforço enorme?” 
”Não existe uma referência certa de como a vida deve ser, Perry. Não há um mundo ideal que você possa esperar que apareça. O mundo sempre foi o mesmo, depende de você saber o que fará nele”
Outro aspecto da história é a ruptura do pensamento conformista de R. Na medida em que começa a filosofar e, principalmente, fazer amizade com Julie, ele vai adquirindo mais “esperanças”, percebendo que as coisas possuem sentidos e que as coisas não acontecem porque tem que acontecer.
- Ouvi dizer que o último país do mundo entrou em colapso em janeiro.
- É mesmo? E qual era?
- Não me lembro. Suécia, talvez?
- Então o globo está finalmente em branco. Isso é deprimente.
- Pelo menos você tem uma herança cultural a qual se apegar. Seu pai era etíope, né?
- Sim, mas o que isso significa para mim? Ele não se lembra de seu país, eu nunca estive lá e agora ele não existe mais. Tudo o que sobrou pra mim é a pele marrom, e quem liga pra cor da pele hoje em dia? Em um ou dois anos, todos seremos cinzas de qualquer forma. 
O final do livro deixa a desejar, não por ser ruim, mas por deixar muitas coisas implícitas, deixando alguns desfechos baseado no achismo. Talvez o filme supra essa lacuna. Torço por isso.

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