8 de fevereiro de 2013

Preconceito linguístico - O que é, como se faz

É que os preconceitos, como bem sabemos, se impregnam de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo. É necessário um trabalho lento, continuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito.
Neste livro do LINGUISTA Marcos Bagno, o autor nos traz diversos exemplos de mitos repetidos a exaustão sobre a língua portuguesa, tais como: português é difícil, que serve como veiculo de ascensão social, que existe uma forma melhor de se falar e escrever (deixando implícito que há outra pior), etc.


Esses mitos listados pelo autor são a forma encontrada para que o mesmo possa refletir acerca da verdadeira problemática: o preconceito linguístico.

A linguá é um instrumento politico e é usada para excluir e reprimir aqueles que não possuem acesso a NORMA-PADRÃO (que o autor recusa-se a chamar de "norma culta"), ou seja, o modelo IDEALIZADO de língua "certa".  Essa norma-padrão não faz parte da língua.

Os mitos esclarecidos no livro: 
Mito nº1: "O português do Brasil apresenta uma unidade surpreendente";
Mito nº2: "Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem português";
Mito nº3: "Português é muito difícil";
Mito nº4: "As pessoas sem instrução falam tudo errado";
Mito nº5: "O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão";
Mito nº6: "O certo é falar assim porque se escreve assim";
Mito nº7: "É preciso saber gramática para falar e escrever bem";
Mito nº8: "O domínio da norma-padrão é um instrumento de ascensão social".

Bagno chama de "Variedades PRESTIGIADAS" aquelas linguagens faladas/escritas pelos cidadãos com acesso a educação. "Variedades ESTIGMATIZADAS" é o nome que o mesmo dá as formas de se comunicar que são vitimas de escarnio e desprezo. 

A língua é quem dita a gramática e não o contrario, afinal o aprendizado da língua falada sempre precede o aprendizado da língua escrita (quando ocorre). A língua é atividade linguística real dos falantes em suas interações sociais.

Os próximos parágrafos envolvem um questionário imaginário criado por mim e respondidos com excertos do texto original.

- É verdade que todo mundo que nasce no Brasil sabe falar português?
Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua. Saber uma língua, na concepção científica da linguística moderna, significa conhecer intuitivamente e empregar com facilidade e naturalidade as regras básicas de funcionamento dela. (...) Está provado e comprovado que uma criança de 5-6 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua! Ela tem todos os recursos necessários para se exprimir, para narrar fatos ocorridos no passado, para fazer projeções no futuro, para demonstrar afetividade, para situar o seu discurso nos eventos de interação. O que ela não conhece são sutilezas, sofisticações e irregularidades no uso dessas regras, coisas que só a leitura e o estudo podem lhe dar. Mas nenhuma criança brasileira dessa idade vai dizer, por exemplo: "Uma meninos chegou aqui amanhã". Um estrangeiro, porém, que esteja começando a aprender português, poderá se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando vê uma criancinha estrangeira falando - "Tão pequeno e já fala tão bem inglês [ou outra língua]" - tem seu fundo de verdade: muito pouca gente conseguirá falar uma língua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criança de seis anos que tem nela sua língua materna! Por quê? Porque toda e qualquer língua é "fácil" para quem nasceu e cresceu rodeado por ela! Se existisse língua "difícil", ninguém no mundo falaria húngaro, chinês ou guarani, e no entanto essas línguas são faladas por milhões de pessoas (bilhões, no caso do chinês), inclusive criancinhas analfabetas! 

- Qual deve ser objetivo da escola ao ensinar português para os alunos?
A grande tarefa da educação linguística contemporânea é permitir, incentivar e desenvolver o  letramento  dos alunos, isto é, a plena inserção desses sujeitos na cultura letrada em que eles vivem. Este é um dever da escola e um direito de todo cidadão. E para que isso aconteça, para que as pessoas possam ler e escrever bem, elas têm que ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever, reler e reescrever, re-reler e re-reescrever... Todas as milhares de horas-aulas jogadas fora todo ano com a decoreba inútil e enfadonha da nomenclatura gramatical e com os exercícios de análise morfológica/sintática têm de ser integralmente dedicadas à tarefa de letramento dos nossos estudantes.
- Por que você prefere usar o termo "norma-padrão" ao invés de "norma culta"?
Não é culta, mas sim cultuada: não a forma culta como ela é, mas a norma culta como deveria ser.
- Você fala muito em ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever. Porem sabemos a gramática é cobrada nos concursos, provas de vestibular...
Quando digo coisas assim em público, algumas pessoas levantam a objeção de que o ensino da nomenclatura tradicional, das definições, das classificações, da análise sintática é necessário porque são essas coisas que serão cobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou de prestar o vestibular. Se é assim, cabe a nós, professores, pressionar pelos meios de que dispomos - associações profissionais, sindicatos, cartas à imprensa - para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira, trocando as velhas concepções de língua por novas. Não temos de nos conformar passivamente com uma situação absurda e prosseguir na reprodução dos velhos vícios gramatiqueiros simplesmente porque haverá uma cobrança futura ao aluno.

- Quer dizer que não existem "erros de português"?
No início do século XX o "certo" era escrever: EM NICHTEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES, CHIMICA E PHYSICA. Se hoje o "certo" é escrever: EM NITERÓI ELE PÔDE ESTUDAR CIÊNCIAS NATURAIS, QUÍMICA E FÍSICA, isso não altera a sintaxe nem a semântica do enunciado: o que mudou foi só a ortografia.
Tá, então não existem erros de português, mas sim erros de ortografia. Sendo assim posso falar e escrever qualquer coisa que não estarei errado?

Usar a língua, tanto na modalidade oral como na escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade (...) Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos: se é uma situação formal, tentaremos usar uma linguagem formal; se é uma situação descontraída, uma linguagem descontraída, e assim por diante. Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores. (...) Não se trata simplesmente, como deve ficar bem claro, de "aceitar" a variedade linguística estigmatizada falada pelos alunos e ficar só nisso - essa é uma acusação ridícula dirigida aos linguistas por aqueles que não conseguem ou não querem ler com a devida atenção as coisas que nós escrevemos. A função da escola é, em todo e qualquer campo de conhecimento, levar a pessoa a conhecer e dominar coisas que ela não sabe e, no caso especifico da língua, conhecer e dominar, antes de mais nada, a leitura e a escrita e, junto com elas, outras formas de falar e de escrever, outras variedades de língua, outros registros.


- Quais os erros mais comuns de pessoas que não tem acesso adequado ao estudo?
Uma pessoa com poucos anos de escolarização, pouco habituada à prática da leitura e da escrita, tendo como quadro de referência apenas uma suposta equivalência unívoca entre som e letra, fará uma análise dotada de reduzido instrumental teórico, empregando como ferramenta básica a analogia. Assim, quem escreveu CHÍCARA em vez de XÍCARA não fez isso porque quis errar, mas sim porque quis acertar. Se existe CHINELO, CHICOTE, CHIQUEIRO, CHICLETE, por analogia se chega à possibilidade de também haver CHÍCARA. É importante notar que os “erros” de ortografia são constantes: troca de J por G, de S por Z, de CH por X e assim por diante — justamente por serem casos em que é necessário fazer uma análise da relação fala-escrita que ultrapassa os limites teóricos da suposta equivalência som-letra. Dificilmente alguém vai tentar escrever XÍCARA usando um J, um G, um S no lugar do X oficial, porque faltam dados de experiência para uma analogia razoável. Por outro lado, uma pessoa que tenha frequentado a escola por muitos anos, que leia e escreva assiduamente, que se tenha familiarizado com o uso do dicionário, que tenha sido despertada para a existência das regularidades e irregularidades da língua escrita, saberá que a simples analogia não será suficiente como guia no momento de escrever — outros quadros de referência terão de ser acessados: a cultura erudita, a etimologia das palavras, as reformas ortográficas, os critérios de normativização da ortografia etc

Ok. Outra pergunta: por que você diz que a "finalidade da linguagem é a comunicação é um mito"?
"Existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de "comunicar", de "transmitir idéias" - mito que as modernas correntes linguísticas vêm tratando de demolir, provando que a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade, de manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de emudecimento. Ao lado dele, também existe o mito de que a escrita tem o objetivo de "difundir idéias". No entanto, uma simples investigação histórica mostra que, em muitos casos, a escrita funcionou, e ainda funciona, com a finalidade oposta: ocultar o saber, reservá-lo a uns poucos para garantir o poder àqueles que a ela têm acesso.


O livro possui muito mais ideias interessantes sobre o papel da língua e da linguagem no meio social. Contudo não posso deixar de dizer que o autor também dá umas escorregadas ou mesmo chega a se contradizer em certos pontos (o que não invalida suas ideias).

Por exemplo:
Não é a "língua" que tem armadilhas, mas sim a gramática normativa tradicional, que as inventa precisamente para justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável.
A gramática tem "armadilhas"? Muito provavelmente, mas isso não a torna dispensável (e o autor não a dispensa, apenas posterga seu ensino para o ensino médio).
A língua materna não é um saber desse tipo: ela é adquirida pela criança desde o útero, é absorvida junto com o leite materno. 
Piada, né? Muito bonitinho e poético, mas falso. Parece até que o autor nunca viu nenhum caso de crianças selvagens. Onde está essa "língua absorvida junto com o leite materno"? Recomendo assistirem ao filme "O Enigma de Kaspar Hauser", que trata de uma dessas crianças.


A edição que possua é 54ª, de Agosto de 2011. Aparentemente o Marcos Bagno foi atualizando seu livro com novas ideias, reformulando passagens, acrescentando e modificando coisas. Digo isso porque me deparei com várias edições de seus livros na internet e em alguns eu não encontrava a passagem que queria expor aqui no blog (e tive que transcrever diretamente do livro ao invés de apenas dar CTRL+C e CTRL+V). Este link aponta para a edição mais atualizada que encontrei na internet (a 49ª).


Vale a pena ler. Eu, que era um GRAMMAR NAZI (vejam o link, vale a pena), corrigindo tudo que via de errado na internet, diminui muito minha perseguição.
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