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9 de julho de 2017

ABREU, Regina. História de uma coleção: Miguel Calmon e o Museu Histórico Nacional. Anais do Museu Paulista. NS N.2, p. 942, 1994.

O texto de Regina Abreu trata da inserção da coleção de Miguel Calmon no espaço do Museu Histórico Nacional (MHN). A coleção Miguel Calmon foi fruto da doação de Alice de Porciúncula, após a morte de seu marido. Continha jóias, pedras preciosas, porcelanas raras, entre outros objetos suntuosos.
No contexto da época, havia a oposição entre duas concepções históricas: a “clássica” e a “Moderna”. Esta tornou-se dominante no fim do século XVIII e baseava-se “numa construção linear e progressiva do tempo, substituindo a noção de “ética” pela de “verdade”. Além disso, havia outro embate, o da percepção histórica e a memória coletiva: a histórica, em busca da “verdade”, passa a ser contada pelos especialistas através de documentos e informações em detrimento a memória dos indivíduos.
A criação do MHN se deu devido a alguns fatores: uma continuação nacional das exposições universais, o desejo de introduzir o “moderno” e associa-lo a imagem da monarquia, etc. “A idéia de nação pressupunha uma história do passado” , tendo o museu tal função. A revolta com a derrubada do Morro Castelo, berço da ocupação da cidade do Rio de Janeiro foi um outro motivo, fazendo com que os intelectuais reinvidicassem edificações para esses lugares de memórias que visavam a celebração de uma passagem ou personagem da história.
O objetivo do MHN era tratar da “evolução da chamada nação brasileira”.
O primeiro diretor do MHN foi Gustavo Barroso, nomeado pelo então presidente Epitácio Pessoa. O diretor era tido como intelectual, carismático e infatigável.
O museu personificou a figura de Gustavo Barroso. Sua concepção de continuidade “privilegiava o aspecto de permanência (em detrimento da mudança) em sua construção histórica de nacionalidade” . Para o diretor, a história tinha como “objetivo de ensinar, transmitir ou afirmar valores no presente”.
A tentativa de ruptura com o passado com a venda de bens da família imperial foi frustrada. Os objetos foram adquiridos, em sua maioria, por amigos da família e, posteriormente, doados ao museu. “Foi durante a regência de Gustavo Barroso que se configuraram a formação do acervo e a consolidação da instituição. A maioria das peças foi adquirida nesta fase”.
A história do Brasil contada pelo MHN era um misto da “clássica” com a “moderna”, pendendo mais para a primeira. As salas do museu eram divididas em períodos históricos e havia um culto ao passado.  
Segundo Sigrid Porto de Barros, “os objetos seriam testemunhas de épocas determinadas, portando conhecimento transmissível” . O MHN pregava uma continuidade do estado brasileiro em relação ao português. A elite do país era associado ao estado imperial, enquanto o povo seria formado por uma mistura de raças, construindo a identidade nacional.
O doador de objetos ao MHN era visto como o primeiro conservador. A instituição prezava muito a autenticidade das peças.
A “troca de presentes” citada no texto refere-se ao fato do diretor do MHN ter dado a oportunidade da coleção adentrar na “casa do Brasil”. A contraparte acontece com a entrega das jóias pela mulher de Miguel Calmon.
A lógica da coleção Miguel Calmon só tinha sentido como um todo, em conjunto. Os bens atribuídos fazem parte de uma relação entre os vivos e os mortos, herdados pelo dono da coleção. Os bens adquiridos são aqueles que o titular recebeu em vida, como exemplo as homenagens recebidas. Estas homenagens eram frequentemente relacionadas à sua origem baiana.
Na última parte do texto, é mostrado o porquê do ato de se conservar objetos: “forjar uma consciência cívica” .

Atualmente a Sala Miguel Calmon, local onde residia a coleção, não existe mais. Suas peças estão dispersas nas reservas técnicas.  Contudo, ela permanece preservada digitalmente no acervo virtual do do MHN.
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