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9 de julho de 2017

NUNES, Ana Ignez B. L. e SILVEIRA, Rosemary do N. Psicologia da aprendizagem: processos, teorias e contextos. Fortaleza: Líber Livro, 2008. (excerto) p. 16 -19

Concepções De Conhecimento E Aprendizagem
Aprendizagem não é um conceito simples e unânime. Há diferentes concepções de conhecimento que têm abordado a aprendizagem de forma variada centrada no aspecto interno ou na interação sujeito e meio. Elegemos quatro delas amplamente discutidas no cenário da Psicologia da Educação. São elas: Empirista, Inatista, Construtivista e Histórico-Cultural.
A denominação empirista refere-se ao movimento filosófico (desenvolvido na Inglaterra) que defendia a tese de que o conhecimento humano tem origem a partir da experiência.
Acreditava-se que a sensação é a primeira fonte de todas as ideias e que o ambiente externo é fator primordial na aquisição do conhecimento. Esta visão filosófica influenciou a ciência moderna, a psicologia comportamental norte-americana, no início do século XX, assim como o contexto educacional. Transpondo esta concepção para o cenário da escola, temos a estruturação do ambiente escolar, dos recursos metodológicos e, a figura do professor como promotores centrais da aprendizagem. Ocorre uma determinação do ambiente externo sobre a ação do aluno em seu processo de conhecimento da realidade, o qual aprende por meio de uma absorção passiva de conteúdos/atividades (BECKER, 1994).
A visão inatista de conhecimento considera que as condições do indivíduo para aprender são predeterminadas.
Do ponto de vista pedagógico, significa dizer que o aluno traz uma espécie de herança geneticamente determinada que o predispõe a aprender. As intervenções externas são consideradas, porém possuem caráter secundário na aquisição do conhecimento. O aluno é percebido como passivo em seu processo de aprendizagem diante das determinações internas, as quais se sobrepõem à interferência do professor. O ensino, centrado no aluno, o coloca numa posição de pseudoautonomia diante dos conhecimentos, não enfatizando o papel d e um mediador na consecução dos objetivos pedagógicos. O papel do professor é o de quem deverá oferecer condições ao aluno para que se desenvolva e para que faça crescer suas possibilidades (naturais) para aprender.
O construtivismo de Jean Piaget considera o conhecimento humano, construído graças à interação sujeito e meio (físico e social) externo. O desenvolvimento intelectual/afetivo passa por etapas de organização, não sendo inato, nem apenas fruto de estimulações do ambiente.
Nesta concepção epistemológica, o aluno é ativo em seu processo de construção do conhecimento, devendo ser respeitado em seu desenvolvimento espontâneo. Na aprendizagem deve ser considerada a lógica de seu raciocínio. Piaget valoriza a compreensão do processo de resolução de um dado problema ao invés de mero resultado, enfocando os aspectos qualitativos da inteligência e a forma como cada sujeito vai dando significado à realidade circundante.
A concepção de conhecimento com base na psicologia Histórico-cultural de Vygotsky enfatiza o papel da cultura na formação da consciência humana e da atividade do sujeito.
Nesta concepção, a criança em seu percurso de desenvolvimento, domina gradativamente os conteúdos de sua experiência cultural, os hábitos, os signos linguísticos e também as formas de raciocínio utilizadas em variadas situações. Esse processo de apropriação de conhecimento é construído socialmente, ou seja, depende das oportunidades que lhe são dadas em determinado contexto social e da atividade intencional do aprendiz. Esta teoria apresenta a ideia de um aluno ativo em seu processo de aprendizagem. É um sujeito que aprende não por imposição de métodos e de arranjos externos que desconsideram sua capacidade de produzir sentidos acerca da realidade. A aprendizagem ocorre sim, em função de um processo mediacional, de intercâmbio entre sujeitos (professor/aluno e aluno/aluno).
Cada uma das concepções evidenciadas traduz diferentes visões de ser humano, mundo, educação, escola, ensino e aprendizagem, que orientam a prática docente de modo explícito ou implícito. É necessário cuidado para não rotularmos os docentes como adeptos de uma tendência ou de outro, sem compreender sua formação, prática, história de vida e o contexto pedagógico, político e social no qual estão imersos. Enfim é preciso uma investigação criteriosa para ter clareza sobre o que sustenta, epistemologicamente, o trabalho do professor.
Analisar a aprendizagem na psicologia da educação contemporânea remete ao compromisso de articular este tema com aspectos intrínsecos à sociedade atual, marcada pela velocidade de mudanças, pelos avanços da Tecnologia da Informação e da Comunicação, pelo grande volume de informações e conhecimentos veiculados. Ao mesmo tempo a sociedade está permeada de contradições expressas, por exemplo, na desigualdade e exclusões sociais, no alto índice de analfabetismo e no crescimento de patologias psíquicas como a síndrome do pânico, depressão, distúrbios alimentares etc. A aprendizagem como processo complexo e interativo, se constitui na relação do sujeito com as situações concretas nas quais está inserido; não estando, portanto, desarticulada deste panorama explicitado.
Aprender em cada época, em cada sociedade, tem suas idiossincrasias; o que faz da aprendizagem um conceito eminentemente histórico, psicossocial e cultural. Deste modo, não faz sentido analisar fracassos, distúrbios, dificuldades, sucessos conquistados na aprendizagem, sem considerar o sujeito que aprende em todas, as suas dimensões e contextos. Aprender, então, não pode ser um ato mecânico, pois exige curiosidade, atenção, espírito investigados e ousadia para enfrentar o novo.
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