Dias Comuns

qualquer coisa aleatória que passa na cabeça

9 de julho de 2017

SANDBERG, Mark B. Efígie e narrativa: examinando o museu de folclore do século XIX. In: CHARNEY, Leo; SCHAWARTZ, Vanessa R. (orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

O folclore está ligado à cultura tradicional. No inicio do artigo de Mark Sandberg é citada a origem do “museu de folclore”. Esta instituição é surge no fim do século XIX na Escandinávia e tem como objetivo “preservar uma imagem concentrada e imobilizada da cultura tradicional no momento em que esta parecia mais ameaçada pelas mudanças da chamada modernidade”. O objetivo do artigo então é oferecer “essa justaposição ao examinar a lógica visual do museu de folclore e o seu apelo ao espectador”.
.É mostrado que o museu despertava vários sentimentos entre os seus espectadores, sejam eles por questões de distração, voyeurismo (ato de observar sem ser observado), subjetivação instável (na qual o individuo interage/atua) e a perspectiva panóptica (achar que o objeto está te observando).
Na primeira subdivisão do artigo, Sandberg nos mostra o contexto histórico da Escandinávia. Mostra-nos que a modernidade chegava nesta região e que o aumento do fluxo de pessoas fazia com que o impacto cultural fosse maior, devido ao isolamento de seus paises. As ferramentas perdem seu valor de uso, ou seja, são subvertidas. A construção de estradas torna possível uma mobilidade social entre o campo e a cidade.
Com a instauração dos museus, Moltke Moe tece um comentário acerca dos turistas que visitam o país. Diz que estes levam com ele um pedaço da cultura em extinção daquele mundo. Os próprios moradores do campo, ao se mudar para a cidade acabam tornando-se espectadores de suas culturas anteriores.
O problema do museu então é como estruturar a sua exposição. Anders Sandvig diz que “queria evitar o efeito excessivamente organizado, próprio aos museus; queria realmente que o visitante esquecesse que via uma coleção à sua frente, e, ao contrario, tivesse a impressão de estar visitando uma casa de verdade.”
A primeira estrutura de exibição foi a funcionalista, “que reconstituía contextos para os objetos ao colocá-los em relação com um corpo, uma cena e uma anedota ou descrição narrativa”. Sophus Muller foi uma das vozes que criticaram este tipo de exibição, pois acreditava que estas eram de puro entretenimento comercial. Além disso, havia o problema do espaço físico: não tinha como comportar a grande variedade de objetos em um só local. Seriam necessários vários edifícios.
Os manequins expostos eram agrupados em poses interativas, de modo ao espectador se sentir “no clima”. Contudo, era regra de que estes manequins não encarassem os visitantes, pois estes poderiam sentir-se intimidados. Haviam acessórios “usados” pelos manequins de modo a ativar a imaginação do público.
Este tipo de estrutura fracassou na substituição da realidade pela representação.
O museu ao ar livre permitia aos espectadores se sentirem como visitantes na casa de alguém que, a qualquer momento, poderiam voltar. O público podia inspecionar o interior da exibição. A dificuldade dava-se quando o clima mudava, tendo que transportar as peças de um local para outro, podendo não faze-lo exatamente como estava (a questão dos manequins encarando o público ao invés de ter um olhar distante ou encarar outro manequim).
Quanto ao voyeurismo, é destacado o problema dos manequins: “Quanto mais próximo da vida real os manequins se tornassem, no entanto, mais ameaçariam a hierarquia desta situação do olhar”. Esta é uma das vertentes da perspectiva panóptica, na qual você acha que está sendo observado.
A estrutura da quarta parede foi um “avanço” em relação a funcionalista. “Nas exibições tridimensionais de manequins, as únicas restrições eram as normas sociais e institucionais do comportamento do espectador e não as limitações inerentes ao meio da representação”.
A diferença da estrutura da exibição dos holandeses para com os suecos e finlandeses era que nada impedia os visitantes de “sentar-se ao lado dos manequins à mesa e de bater em suas costas, exceto, talvez, o decoro social”. A liberdade de movimentação no cenário fazia parte do apelo da experiência com o museu. O problema citado é que as vezes eles se excediam.
Outro destaque dessa estrutura era tentar confundir os visitantes, com guias reais travestidos com roupas da época, junto com outros manequins. Isso atiçava a curiosidade dos mesmos, não sabiam se era real ou ilusório. No fim, o Skansen (museu) optou por usar somente guias de carne e osso. Uma mudança de pensamento sobre os manequins surgiu: “(...) mas quando esses lares [exposição] são exibidos de modo correto, as figuras de cera são necessárias? Não, nossa própria fantasia pode melhor do que qualquer figura de cera evocar os mortos, velhos e jovens”.

Em relação ao material exposto no museu, basicamente eram em formas de narrativa, gravura e fotografia. Quem freqüentava o museu, além dos visitantes, eram os diretores, curadores e jornalistas.
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