Dias Comuns

qualquer coisa aleatória que passa na cabeça

9 de julho de 2017

SENNET, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. Cap. 10 “Individualismo urbano”.

Richard Sennet traça, logo de cara, uma comparação entre a Londres eduardiana e a Roma de Adriano. Essa comparação ocorre devido ao alcance global da cidade, seu tamanho e seu poder econômico. Essa magnitude é sublinhada com as primeiras (e falsas) impressões sobre a cidade: cordeira, tranqüila, com pessoas felizes, hospitaleiras e amáveis.
A migração campo/cidade (êxodo rural) durante o período da revolução urbana é latente. Em um espaço de 40 anos, (1871-1911), ¾ da população já estão estabelecidas na cidade.  Contudo, Londres não foi tida como modelo: suas “relações sociais eram mais complexas e confusas” e não havia uma prefeitura para garantir o bem-estar dos cidadãos. “O poder era exercido pelos proprietários da terra” . Isso sem falar na má distribuição de renda.
Como uma cidade com tantos problemas se mantinha estável? Para Tocqueville e Forster, criou-se uma mistura de sentimentos de auto-respeito, individualismo e passividade. “Cada pessoa age como se fosse estranha à sorte dos demais”.
Richard Sennet nos mostra como as cidades foram planejadas para evitar as aglomerações urbanas organizadas. É citado o caso da cidade de Londres e a Paris de Haussmann.
Regent Street dava acesso a Regent’s Park. Este era uma construção plana, um parque aberto, de transito livre e modo a não interromper o fluxo das pessoas e dos veículos. O fluxo não devia parar, essa era a premissa dos dirigentes (a questão da velocidade). Tudo foi garantido para que isso acontecesse. ”Funcionando como um isolante do espaço, e esvaziando-o, o transito espalhou os pontos de encontro, praticamente impossibilitando as aglomerações, para ouvir um discurso, por exemplo. Ambos privilegiariam o corpo em movimento, evitando tumultos” .
O metro de Londres, outra dessas obras, tinha como função levar as pessoas para a cidade, não para fora dela. O baixo custo de transporte possibilitou a mudança residencial das pessoas, levando as camadas mais pobres para viver na periferia e vir ao centro apenas a trabalho.
Haussmann, em Paris, se propôs a fazer o mesmo. Dividiu as áreas pobres com largadas avenidas. Áreas estas que sofreram apenas maquilagem.
As três redes citadas no texto tratam do fluxo de pessoas. A primeira levava em conta o que havia sido construído e continha as veias da cidade. Era formada por diversas avenidas largas (as artérias). A segunda eram as veias e dirigiam-se para o “comercio e estabelecimentos industriais de menor porte” . A terceira rede era uma “intercessão das principais rotas que davam acesso à cidade e dos elos entre as duas anteriores” .
Richard Sennet trata também do conceito de conforto e a sua mudança no decorrer do tempo. Em principio, viu-se que os trabalhos nas fabricas levavam ao desgaste e a fadiga, levando os funcionários a não renderem o suficiente. E é por isso que o conforto é buscado.
No século XVIII, o conceito de conforto era poder sentar e manter conversações com as pessoas ao redor, com liberdade de movimentos. No século seguinte, a cadeira perde essa liberdade, mas é mais relaxante para a pessoa. O silêncio vira sinônimo de privacidade e ninguém deseja ser interpelado por estranhos.
O café/pub era um local em que a distinção de classes era relevada em nome de um bem maior: a informação. Enquanto bebiam, as camadas sociais mais variadas dialogavam em busca das últimas noticias. A criação das mesas a céu aberto nas calçadas, aliada ao conforto das cadeiras, fez com que os freqüentadores passassem a ser apenas observadores da paisagem.
A cadeira confortável e o café/pub, invenções da época, unem o passivo e o individualismo .
O sistema de calefação (neutralizar a ação do frio) adequado trouxe a criação dos espaços selados. Aliado ao elevador, as pessoas não precisavam mais sair de suas residências/locais de trabalho. Tudo era muito mais cômodo.

A última parte do texto de Richard Sennet trata dos livros de E.M. Forster: Howards’s end e Maurice e a questão do desenraizamento.
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