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15 de agosto de 2012

O Mito da Monogamia


Começaremos este post com o mito da alma gêmea de Platão.

Aristófanes começa dizendo que no início dos tempos os homens eram seres completos, de duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, o que permitia a eles um movimento circular muito rápido para se deslocarem. Porém, considerando-se seres tão bem desenvolvidos, os homens resolveram subir aos céus e lutar contra os deuses, destronando-os e ocupando seus lugares. Todavia, os deuses venceram a batalha e Zeus resolveu castigar os homens por sua rebeldia. Tomou na mão uma espada e cindiu todos os homens, dividindo-os ao meio. Zeus ainda pediu ao deus Apolo que cicatrizasse o ferimento (o umbigo) e virasse a face dos homens para o lado da fenda para que observassem o poder de Zeus.

Dessa forma, os homens caíram na terra novamente e, desesperados, cada um saiu à procura da sua outra metade, sem a qual não viveriam. Tendo assumido a forma que nós temos hoje, os homens procuram sua outra metade, pois a saudade nada mais é do que o sentimento de que algo nos falta, algo que era nosso antes. (Fonte)


Apesar do título chocante (eu achei), a ideia geral de O Mito da Monogamia (David Barash e Judith Lipton), grosso modo, não é dizer que a monogamia não existe, mas sim que ela não é uma característica "natural" ou "vantajosa" como se proclama pelos cantos. Partindo de pressupostos biológicos, os autores (UM CASAL, VEJA QUE IRÔNICO) mostrarão o desenvolvimento na história do ser humano e dos animais (Entenda animais nesse post como tudo que não é um ser humano. Mosca é um animal, ok?), mostrando as motivações que nos levam a cometer CEP (copula extra par, conhecida pelos humanos como um CASO fora da relação) e como isso seria o "comum" ou "natural".

O esquema narrativo é repetitivo, mas não enfadonho. Funciona assim: exemplo de algum animal supostamente monógamo (que talvez não o seja) acrescido de explicações sobre o mesmo. São MUITOS exemplos. Pra quem brinca de ADEDONHA e quer descobrir novos animais, este livro serve bem ao proposito. Penso que deveria conter algumas ilustrações, porque há centenas (sem exagero) de animais dos quais nunca ouvi falar.


Os termos técnicos presentes no livro (CEP, por exemplo) são poucos e de fácil compreensão. A linguagem é feita para o público leigo e a escrita não é pedante. Descobri que usava o termo "Poligamia" erroneamente. Um homem com várias mulheres pratica "Poliginia", enquanto uma mulher com vários homens é adepta da "Poliandria".

O livro se divide, basicamente, em quatro partes: a) a desconstrução do mito da monogamia nos machos b) nas fêmeas c) por que a monogamia acontece? d) como são os seres humanos, "naturalmente"?

Lembrando: os autores fazem várias ressalvas quanto aos argumentos antropológicos e culturais. Não percebi a intenção de promover uma guerra de sexos entre os humanos, mas sim de explicar algo comum biologicamente aos animais em geral. Ao longo do livro são utilizados argumentos para reforçar o papel da monogamia na sociedade humana e porque ela é necessária, nem que seja para manter as aparências.


Alguns exemplos em relação aos argumentos biológicos utilizados: a fêmea é mais seletiva que o macho pois a mesma demanda mais energia quando está PRENHA. O macho, por outro lado, produz esperma rápido, de baixo custo e com fácil reposição. Portanto ele preza mais pela quantidade de fêmeas inseminadas do que pela qualidade da prole.

"O acasalamento múltiplo não se refere apenas à conhecida tendência dos machos de procurar várias parceiras sexuais, mas também às fêmeas" (P.17)

Por outro lado, há casos de "papeis sexuais invertidos". Exemplo: cavalo-marinho: a fêmea põe os ovos que são fertilizados pelo macho. Gafanhotos e Borboletas fêmeas também são exemplos de "papel sexual invertido", pois em ambos os casos a fêmea corteja o macho.


Um outro fator que justifica a monogamia na sociedade humana é:

"Uma fêmea "sabe" que qualquer descendente que saia de seu corpo é geneticamente dela, enquanto um macho precisa confiar na palavra da parceira" (P.52)

E quais comportamentos são os mais comuns quando se descobre que a prole não pertence aquele macho? Os autores identificam a agressão física, forçar uma cópula rápida, prover menos cuidados paternos e desertar totalmente a parceira. Isso lembra muito nós humanos, né?


Quando se fala em atração ou condição genética, é curioso o paralelo entre as espécies e os humanos. Diz-se que nas aves os "machos não-atraentes protegem suas parceiras mais de perto". Os autores seguem com:

"Entre os seres humanos, os homens menos atraentes investem mais tempo e dinheiro com suas parceiras do que os mais atraentes" (P.61)


O livro também mostra que estupros também acontecem em outras espécies que não a humana. Usa-se o termo, suavizado, "cópula forçada". Segundo os autores:

"É improvável que qualquer um que veja o fenômeno [cópula forçada] entre os animais tenha alguma dúvida do que está acontecendo" (P.85)

Temos que ter cuidado com as pessoas que porventura possam a vir legitimar o estupro humano como uma condição biológica. Nós, seres humanos, temos a capacidade de negar nossos "instintos" para conviver em sociedade.

Há, na realidade, um corpo crescente de evidências de que o estupro humano também tende a ser uma tática reprodutiva de prováveis "fracassados" (P.88)

A "hipótese do filho sexy", no qual a prole masculina gerada por um macho atraente será a escolhida na próxima geração de fêmeas é explicada assim:

"As fêmeas podem se beneficiar quando preferem aqueles machos cuja única virtude é a de que são preferidos por outras fêmeas" (P.123)

Afinal, do que adiantaria os outros atributos positivos se o mesmo não será escolhido e, portanto, não cumprirá sua função biológica (geração de descendentes e perpetuação da espécie)?

"Qualquer que seja o pendor humano para o ciúme, o desejo de pensar bem do amado costuma ser ainda maior" (P.236)

"Todo mundo ama um amante, e quanto mais profundamente ele ama, melhor. E, no entanto, normalmente não falamos de casamento apaixonado. Um bom casamento, um casamento feliz, um casamento compatível e confortável, sim, mas só oraras vezes um casamento apaixonado (...) Viver em um estado de paixão eterna seria esquecer-se de grande parte do resto da vida e, na verdade, existem outras coisas" (P.278)

Em suma... este é um ótimo livro. Recomendo muito. Possui muitas passagens interessantes e explica (pra mim, pelo menos) muitos "porquês" de realizarmos comportamentos que achávamos ser tipicamente humanos.

A monogamia não é fácil, mas é possível

Abaixo segue um documentário de 15 minutos chamado Poliamor (de José Agripino) mostrando como a existência de uma família nuclear monogâmica heterossexual (recomendo esse texto) não pertence a uma suposta naturalidade da nossa sociedade.

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