Dias Comuns

qualquer coisa aleatória que passa na cabeça

7 de setembro de 2012

Deus abençoe a América (God Bless America)


Eu tenho um certo receio de quem assistiu e gostou desse filme. Porque podem ter gostado pelos motivos errados. Bem, que EU considero errados, né? Vamos a resenha.

O filme de comédia de humor negro utiliza a violência para fazer uma crítica à sociedade norte-americana e tem sido duramente criticado pelo excesso de violência e pela suposta apologia ao uso de armas.

No filme Frank tenta se matar após ter sido diagnosticado com câncer na cabeça. Mas desiste da idéia quando vê uma garota rica fazendo o maior barraco por não ter ganho o carro desejado em um reality show! Irritado com a atitude da garota, ele começa a matar pessoas irritantes e fúteis, especialmente estrelas de televisão. Pelo caminho encontra Roxy, uma jovem de 16 anos que partilha o seu desprezo pela civilização e juntos tornam-se parceiros no crime. (Fonte)


Como a sinopse falou, o filme crítica tudo de ruim na sociedade americana. E as críticas são validas até certo ponto. Parecem até saídas do Classe Média Sofre. O que só mostra que as críticas são meio que globais. O problema é a maneira de lidar com esses problemas.

Vemos no filme como a mídia maniqueísta, reacionária e conservadora mexe com as nossas ideias. As pessoas passam o dia todo absorvendo as informações da TV, mas não refletem sobre elas. Os chefes dos nossos empregos repetem piadas tiradas da TV e da internet e os empregados o bajulam como se nunca tivessem ouvido aquilo antes.

Esses pequenos ÓDIOS para com os outros são guardados pelo protagonista do filme. Ele vai acumulando isso ao longo da vida e quando descobre que tem uma doença incurável, inoperável e terá apenas alguns meses de sobrevida, acha por bem resolver o que ele considera como problema. Lembra de Um Dia de Fúria com Michael Douglas? Pois é, a comparação é valida, só que não é apenas um dia, mas semanas. Semanas de fúria.


O personagem principal possui DELÍRIOS DE INJUSTIFICADA GRANDEZA: considera-se superior por ter (ou não) determinados gostos. É que nem as pessoas aqui no Brasil que não assistem BBB por achar uma merda (OK) e acham que quem vê é o lixo e a escoria da sociedade (Não-OK). Outro exemplo: pense na reclamação sobre quem ouve música alta no ônibus (OK) e como as pessoas associam funk como música de CRIMINOSOS (Não-OK). O filme cai MUITO nessas rotularizações idiotas.

Outro ponto: segundo o protagonista, não conseguimos conversar sobre nós, mas sim sobre os outros. Como se apenas OS OUTROS, esse SERES ENIGMÁTICOS, fossem digno de nossos comentários. Considero isso uma meia-verdade, pois acho que é impossível dissociar sua vida do que você lê, ouve, assiste, etc. Como seres humanos tentamos criar laços com os outros, mas não podemos logo de cara expor nossa privacidade com estranhos (na verdade podemos, mas...).

O estopim para o inicio da matança é um reality show focado na vida de uma adolescente rica e bastante mimada. Os pais dela dão um carro de presente, MAS ELA NÃO QUER AQUELE carro. E faz um escândalo por isso. Frank fica muito PUTO com aquela atitude. E aí entramos no campo das crianças mimadas e dos pais que se sentem culpados por não fornecer o objeto de desejo delas. Culpa da, mas não somente, mídia. Que insiste que você PRECISA de determinado produto. Que CRIA necessidades. E que sabem fazer boas propagandas para te CONVENCER.


Tudo bem até aí, mas qual a forma de resolver isso? Matando a garota? Bem, é isso que Frank faz. Daí eu penso: qual o discurso do filme? Que “antes” era melhor? (ANTES é outro SER ENIGMÁTICO) Que ao invés de ceder aos caprichos dos filhos, devemos, sei lá, bater para educá-los? Essa é a parte maniqueísta da história. Ou é preto ou é branco. Não há NENHUMA tentativa de relativizar o problema. Se formos seguir o exemplo do protagonista, caminharemos para a intolerância (já estamos caminhando a passos largos). Se você pensar bem, ele matou a garota (Chloe) apenas por discordar dela. Ela nunca lhe fez mal. Ele poderia muito bem ter desligado a TV. Ele teve essa escolha, mas preferiu partir para BRUTALIDADE. Frank acordou meio TOTALITÁRIO

Em certo momento, Frank diz “Só mato quem precisa morrer”. Defina precisar. Por que elas precisam morrer? Por que merecem? O filme fala justamente sobre a reflexão que devemos fazer, mas algumas resenhas que vi pela internet, as pessoas se identificam com a história, mas não refletem sobre ela. Irônico. As perguntas implícitas são as mesmas feitas por animes como Death Note ou Jigoku Shoujo (Hell Girl).

Tem muito estereótipo de coisas odiadas. Como, por exemplo, conversar alto no cinema ou deixar o celular ligado ou idolatrar subcelebridades da internet. Falta uma consciência mais crítica da população em geral (ou educação, sei lá), mas não acredito que isso seja motivo para o desejo de retaliação do protagonista. Até porque ele só fez o que fez pois estava prestes a morrer. Será que ele faria caso não estivesse?


Recomendo muito esse filme. Não tanto pelo filme em si, mas sim pelos debates que ele propõe. Serve para várias discussões.


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