Dias Comuns

qualquer coisa aleatória que passa na cabeça

7 de março de 2013

A história de Marianinha



Havia essa garota que odiava a banda Teatro Mágico. Bufava, como um búfalo, toda vez que algum engraçadinho CANTAROLAVA o abominado verso "ana e o mar... mar e ana...". Tão logo as pessoas perceberam isso, a canção se tornava uma constante nas reuniões de amigos.

Quando pequena, era mais amena. Escrevia pequenas historinhas cheias de lição de moral: "não bote o dedo na tomada", "olhe para os dois lados enquanto atravessa rua", "somente brinque depois que fizer o dever de casa", "não deixe sua mãe solteira namorar, senão ela não vai mais te amar". Filha única, precisava de toda a atenção que pudesse ser lhe dada.

Infelizmente o discernimento chegou cedo demais. O mundo não era preto-no-branco ou cor-de-rosa como seu quarto. Marianinha entrou numa onda de transgressões e de pequenos delitos. Era erva pra cá, álcool pracolá, furtos de carteira, sexo com seguranças de boate (ela não tinha direito a meia-entrada).

Adorava DOCES e seu maior medo era engravidar. Infelizmente, pra ela, "aconteceu". E aconteceu mesmo, porque se há uma coisa que se pode falar de Marianinha é que ela é paranoica precavida com estes assuntos. Nunca saberemos se a pilula era da farinha ou se a camisinha estourou. O circo estava armado!

Desiludida com este rumo INESPERADO e orgulhosa demais para pedir ajuda aos familiares próximos, a garota partiu para bem longe, onde o vento faz a curva, onde Judas perdeu as botas, para Eldorado, para Atlântida, para o fim do mundo. A gestação se passaria longe dos olhos reprovadores da sua sociedade.



Você vai dizer que é mentira, mas o avião de Marianinha acabou caindo num rio cheio de piranhas em meio a uma tempestade de raios. Todos os passageiros que sobreviveram a queda foram mastigados pelos peixes, menos Marianinha que tem o SANTO FORTE. O santo dela, no caso, era Tupã.

A menina acabou sendo recebida na tribo guarani-kaiowá e lá foi tratada como uma emissária dos céus: além de ter caído do mesmo, possui uma brancura característica na pele que iluminava e cegava aqueles que a olhavam.

(Durante o período que permaneceu na aldeia, os índios pediam sua ajuda para caçar animais a noite, dada a luminosidade da sua pessoa. Sua OCA era bastante espessa para evitar o bronzeamento).

Devido ao avançado estágio da gestação, não podia simplesmente voltar andando pra casa. Teria que ter a criança junto aqueles povos que ela considerava BÁRBAROS. Aos poucos, contudo, Marianinha foi se despindo (calma!) de todos os preconceitos (viu? mente suja) e imergiu naquela cultura. Sem TV e sem internet, meditou sobre a vida, o universo e tudo mais. Havia muitas perguntas, mas todas elas levavam a uma mesma resposta: 42. Percebeu que a filosofia não era muito sua praia, mas ainda assim adquiriu bastante conhecimento.

Mesmo sem os cuidados médicos que uma pessoa urbanizada espera, o Pajé fez o suficiente para que a criança nascesse bem. Marianinha deu a garota o nome de Alice, baseado naquela história infantil onde uma garota entrou numa toca de coelho e visitou locais bastante estranhos.

Sua convicção de não ser mãe permanecia irredutível. Era muita nova. Quem sabe depois? Marianinha pegou carona no primeiro bote com um, dois ou três indiozinhos (os registros da sua passagem pela aldeia são confusos) e acabou sendo feita em PICADINHOS por um animal - que tem o mesmo nome de um dançarino de um extinto grupo musical de axé - quando a embarcação virou.

De Alice só fiquei sabendo que teve seu nome mudada para Amana, cujo significado é "água que vem do céu".
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